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Mariana Belmont

A gente não precisa de acúmulos de tragédias

ECOA

19/03/2020 04h00

Os meus dois primeiros pedidos ao começar este texto são: se você tem o privilégio de ficar em casa sem contato pessoal com ninguém, fique. O outro, é se você tem o privilégio de limpar a sua privada sozinha e continuar pagando sua diarista ou qualquer serviço de profissionais autônomos, faça isso. Eu não faço ideia de como o Brasil estará quando este texto sair, talvez o número de infectados com o coronavírus tenha aumentado expressivamente.

Bom, há alguns dias inundada de informação, achei que seria prudente me acalmar e abordar algo que quase não estamos vendo na imprensa geral: o que toda essa pandemia tem a ver com as questões ambientais mundiais, também em estado alarmista e em crise? Em busca de informações, muitas leituras, conversas com amigos e um olhar generoso para o caos, vou tentar começar essa reflexão e espero que, quando esse texto sair, a gente tenha mais conteúdos brasileiros sobre isso.

Talvez ainda seja novidade para a maioria das pessoas, mas foi a intervenção humana que deu início à pandemia que vem deixando o globo terrestre em pandemia, como chama Organização Mundial da Saúde.

O coronavírus se espalhou pela China e adoeceu pelo menos 73.000 pessoas e matou pelo menos 2.000, desencadeando uma emergência de saúde global. Algumas evidências apontam que o vírus foi transmitido aos seres humanos em um mercado em Wuhan, chamado de "mercado úmido", província de Hubei, já que muitos casos confirmados envolveram indivíduos contaminados pela Covid-19, que estiveram presentes neste mercado local. Além de frutos do mar, carne fresca e animais selvagens vivos vendidos e abatidos ali, sabe-se também que os coronavírus são passados de algumas espécies, incluindo filhotes de lobo vivos, salamandras, crocodilos, escorpiões, ratos, esquilos, raposas, civetas, tartarugas, morcego e camelo, para as pessoas. Isso indica que o vírus pode ter surgido dos animais selvagens à venda no mercado em Wuhan.

A disseminação de doenças zoonóticas, que podem ser transmitidas ao ser humano por animais, é potencializada através do tráfico de animais silvestres, desmatamento e mudanças climáticas. Essas ameaças aumentam a proximidade entre os humanos e os animais. O novo coronavírus é apenas mais um exemplo atual de uma série de causadores de doença que se disseminam por meio do tráfico de animais silvestres, assim como gripe aviária, ebola, a Aids e a síndrome respiratória aguda grave, Sars.

Especialistas dizem que qualquer doença surgida nos últimos 30 ou 40 anos, é resultado da movimentação humana na mudança dos ecossistemas, invasão de áreas de preservação e a chegada cada vez mais próxima em florestas que deveriam ser intocáveis. E um dos principais problemas: o tráfico de animais silvestres para consumo humano, de forma perigosa e misturada com outros animais além do contato humano. Para quem não sabe, os animais silvestres são seres que jamais deveriam ter contato com humanos e com os centros urbanos, não se sabe quantas infecções circulam nas populações de animais selvagens ou sob quais circunstâncias eles poderiam criar a próxima pandemia humana. O tráfico de animais silvestres é um potencial criador de surtos graves em grandes centros populacionais, que consomem desse mercado.

Segundo a ONG Renctas, o tráfico de animais silvestres movimenta cerca de US$ 10 a 20 bilhões (entre R$ 52 e R$ 104 bi) em todo o mundo, colocando o comércio ilegal de animais silvestres na terceira maior atividade ilícita do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e de armas. E o Brasil participa com 15% desse valor, aproximadamente US$ 900 milhões (cerca de R$ 4,7 bi). A devastação das florestas e a retirada de animais silvestres já causaram a extinção de inúmeras espécies e consequentemente um desequilíbrio ecológico. Os mais exóticos, raros e até ferozes, dentre muitos outros, pagam com a vida pelo simples prazer que algumas pessoas têm em possuir um animal silvestre em casa ou em consumir suas peles e carnes.

As mudanças climáticas, o desmatamento, a invasão de áreas selvagens protegidas, o consumo e o comércio ilegal de animais silvestres contribuem sistematicamente para a disseminação de pandemias. O aumento do desmatamento, por exemplo, é um dos grandes causadores de novas e velhas doenças. Desenvolver a floresta da maneira errada pode ser como abrir uma caixa de surpresas. Isso só mostra que a gente usa os recursos ambientais de forma descontrolada e irresponsável.

Hoje, há um número incontável de biólogos, veterinários, médicos e epidemiologistas em um esforço mundial para para entender a o caminho do que chamam de "ecologia da doença". Com muitas informações desde que o problema surgiu na China e que agora chega ao Brasil, ficamos cada vez mais assustados, afinal a pandemia bateu à nossa porta muito mais rápido do que esperávamos.

Por ora, o caminho é cuidar do momento e não esquecer que as causas dessa pandemia estão diretamente ligadas à falta de preocupação global com os recursos naturais, com as florestas e com um consumo mais responsável. Vivemos agora uma pane generalizada no sistema de saúde pública, perdendo um grande número de pessoas. A pandemia que chegou a pouco no Brasil vai atingir diretamente a população mais pobre, as comunidades e povos tradicionais de áreas mais afastadas. E à medida em que perdemos florestas e biodiversidade em volta do globo, o surto de coronavírus pode ser apenas o começo para outras pandemias em escala muito maior acontecerem. E novas pandemias virão, não há dúvidas.

Talvez seja o momento de criarmos outras formas de viver, formas que ainda não sabemos bem qual é, mas o planeta não suporta mais tanto descontrole e pressão dos seres humanos. Cuidar do planeta é cuidar de si e dos outros, afinal o que sai de mim afeta nosso entorno em todo o mundo. Quais serão nossos novos jeitos de estar no mundo? Evitando o aumento da desigualdade social, desmatamento que acabam com o clima e a biodiversidade e cuidar do globo para que a gente ainda consiga equilibrar a vida por mais algum tempo. Está na hora da gente criar uma nova dinâmica de convivência, que a gente ainda não sabe qual é.

* Desde que essa nova doença começou a se espalhar pela China e depois pelo mundo, alguns sites confiáveis (isso é importante!!) estão acompanhando as pesquisas, divulgando informações e a busca pela origem e solução da pandemia. Alguns deixei no corpo do texto, mas outros listo abaixo para quem quiser acompanhar (textos em inglês).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.