Mariana Belmont http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Thu, 05 Dec 2019 16:30:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 É um chamado: até quando deixaremos tantos morrerem? http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/12/05/e-um-chamado-ate-quando-deixaremos-tantos-morrerem/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/12/05/e-um-chamado-ate-quando-deixaremos-tantos-morrerem/#respond Thu, 05 Dec 2019 07:00:07 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=81 Foi quando eu conheci a Marilda, liderança do Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis, foi quando eu conheci o Ronaldo e Vaguinho, do Quilombo do Campinho em Paraty, ambos no Estado do Rio de Janeiro, que eu de fato entendi que indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras protegem as matas com seu próprio corpo, com seu coração, seu olhar e sua força. Trabalhei por alguns anos no Instituto Chico Mendes, fazia parte de um mosaico de unidades de conservação, um modelo de gestão previsto em lei que ajuda a integração entre as unidades e as comunidades locais. As comunidades tradicionais estavam em absolutamente todas as reuniões, pegavam barcos, faziam trilhas, transporte público, mas chegavam.

Não me surpreendo mais com a força das comunidades tradicionais, acompanhei e ainda vejo muito de perto a resistência pela sobrevivência, sabe? Nós, brancos, não temos essa força, nem de longe. Tem uma frase do líder indígena Ailton Krenak que diz: “Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir”. E ele tem toda razão, a história nos mostra isso. Afinal, existimos, comemos, respiramos e seguimos vivos porque os povos das florestas estão lá morrendo para salvar cada pedaço de território que ainda sobrevive neste país.

É desesperador mesmo, eu gostaria muito de trazer mais boas notícias, de levantar e conseguir ter coragem de ler os jornais, ou de ver as mensagens dos meus amigos em perigo na floresta. Mas não existem mais boas notícias há muitos anos, e há 12 meses nada temos de bom vindo do atual governo. Absolutamente nada é esperançoso, não há uma vírgula que podemos salvar, e quem diz que “não é bem assim, mas veja” ainda não entendeu, ou o privilégio não deixou ver, cegou.

Talvez até amanhecer outras notícias surjam, mas em menos de dois dias tivemos o assassinato do líder quilombola José Izídio Dias, o “Seu Vermelho”, do Quilombo Rio dos Macacos, região metropolitana de Salvador. Em mais um crime terrível contra os povos e comunidades tradicionais. Investigar, processar e responsabilizar mandantes e executores deste crime, portanto, precisa ser prioridade do Estado brasileiro. Cabe registrar que o número de assassinatos de quilombolas cresceu 350% entre 2016 e 2017.

Na manhã seguinte amanhecemos com a notícia da prisão dos brigadistas em Alter do Chão, no Pará. É gravíssimo, isso tudo acompanhado da criminalização dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil que lutam pela floresta em pé e pelos direitos dos povos que vivem ali. Como estão fazendo com a organização Saúde e Alegria, que há anos promove na Amazônia um trabalho sério e respeitado pela saúde e desenvolvimento comunitário e na briga contra a especulação imobiliária.

Vira a página, o ministro da economia, Paulo Guedes, repete a ameaça de pedir um novo AI-5, o Ato Institucional nº 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). E, como brilhantemente escreveu Eliane Brum em sua coluna no El País, “O AI-5 já se instala na Amazônia (e nas periferias urbanas)”. E é verdade. E um dia antes do I Encontro Internacional da Coalizão Negra Por Direitos recebemos a notícia de que a presidência da Fundação Cultural Palmares será assumida pelo jornalista e militante bolsonarista de direita, Sérgio Nascimento de Camargo. O novo presidente tem um histórico de agressões a personalidades negras brasileiras, principalmente a mulheres, e à memória da nossa querida companheira Marielle Franco, reconhecida internacionalmente por seu trabalho contra o racismo e o genocídio da população negra e periférica. Além disso, ataca símbolos da história afro-brasileira, como Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra, desrespeita as religiões de matriz africana e as manifestações da cultura periférica como o funk e o hip-hop.

Não é para dormir, afinal amanheceu e a informação era que 8 pessoas morreram pisoteadas na favela de Paraisópolis, zona sul de SP, durante um baile funk nesta madrugada. Elas foram feridas quando a multidão de 5 mil pessoas se assustou e tentou fugir de tiros disparados por PMs, em motocicletas e perseguindo supostos ladrões de moto. Enquanto isso, o Estado passa ileso, mais uma vez, pela responsabilização das mortes.

Enquanto tentamos respirar, os territórios quilombolas e indígenas seguem sob ameaça, ninguém dorme. Os Yanomami se organizam para impedir o avanço do estudo que prevê permitir a mineração em terras indígenas. Não tem tempo de morrer e nem de viver, é luta para continuar existindo. Enquanto tentamos respirar e sair debaixo d’água mais 10 jovens negros foram assassinados pela polícia em alguma periferia brasileira, e mais uma mãe sangra, um pai sangra e outros jovens seguem sendo alvo do próximo dia. E o governo fazendo lei dando licença para matar.

Toda solidariedade à família de Seu Vermelho, à comunidade do Rio dos Macacos e a todas as lideranças quilombolas do Brasil que têm sido cada vez mais perseguidas, violentadas, exterminadas. Toda solidariedade aos indígenas das Terras Yanomami. Toda solidariedade às mães e pais que perdem seus filhos todos os dias pela mão do Estado. Toda solidariedade às famílias dos oito jovens mortos em ação da polícia em Paraisópolis. Toda solidariedade aos deputadas e deputados aguerridos que seguem na resistência e nos ajudam a não perder tanto nesse jogo, agradeço tanto à Áurea Carolina, Talíria Petrone, Joênia Wapichana, Orlando Silva, David Miranda, Benedita da Silva, Paulo Teixeira, Nilto Tatto e tantos outros que agora não consigo citar, mas são necessários nessa luta diária. Toda solidariedade aos movimentos sociais, organizações da sociedade civil, em especial o movimento negro brasileiro.

Novamente deixo um trecho do livro A queda do céu, do xamã e porta-voz dos Yanomami, Davi Kopenawa. Que todos dias nos ensina:

“Alguns brancos chegaram até a afirmar que somos tão hostis entre nós que não podem nos deixar viver juntos na mesma terra! Mais outra grande mentira! Nossos ancestrais viviam na mesma floresta havia muito tempo, muito antes de ouvirem falar dos brancos. Essa gente mentirosa acredita mesmo que somos tão perigosos quanto os soldados dos brancos em suas guerras? Não. Só quer espalhar más palavras sobre nós porque precisa da ajuda delas para conseguir se apoderar de nossa terra. Mas não é pela beleza de suas árvores, animais e peixes que os brancos a desejam. Não. Eles não têm mais amizade pela floresta do que pelos seres que a habitam. O que querem mesmo é derrubá-la, para engordar seu gado e arrancar tudo o que podem tirar do seu chão…Embora os brancos se achem espertos, seu pensamento fica cravado nas coisas ruins que querem possuir, e é por causa delas que roubam, insultam, combatem e por fim matam uns aos outros. É também por causa delas que maltratam tanto todos os que atrapalham sua ganância. É por isso que, no final, o povo realmente feroz são eles! Quando fazem guerra uns contra os outros, jogam bombas por toda parte e não hesitam em incendiar a terra e o céu. Eu os vi, pela televisão, combatendo com seus aviões por petróleo. Diante daqueles fogaréus, de onde saíam imensas colunas de fumaça preta, pensei, apreensivo, que elas poderiam um dia chegar até nossa floresta e que os xapiri não conseguiriam dispersá-las. Mais tarde, revi muitas vezes essa mesma guerra no tempo do sonho. Isso me preocupou muito, porque pensava: “Hou! Esse povo é mesmo muito agressivo e perigoso! Se nos atacasse desse modo, iria nos reduzir a nada, e a fumaça de epidemia de suas bombas logo acabaria com os poucos sobreviventes!”

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O racismo precisa urgentemente ser a pauta principal das pessoas brancas http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/28/o-racismo-precisa-urgente-ser-a-pauta-principal-das-pessoas-brancas/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/28/o-racismo-precisa-urgente-ser-a-pauta-principal-das-pessoas-brancas/#respond Thu, 28 Nov 2019 07:00:29 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=71 Logo na escola pública eu aprendi que não existia isso de “somos todos iguais”. Talvez essa frase seja uma das maiores ciladas que podemos cair na escola ou em casa. Não, não somos todos iguais diante das desigualdades que nos gritam todos os dias, em todos os lugares. Se fosse assim, não teríamos todos os dias casos de discriminação racial nos ambientes corporativos, nos espaços públicos, nas casas legislativas e nos mais variados espaços da cidade. Então, não, não somos todos iguais. E aqui no Brasil é até possível reconhecermos que existe um ou outro tipo de discriminação, mas ela é sempre um problema do “outro”.

Foi na aula de história e em casa que ouvi falar sobre racismo. Mas, na verdade, foi depois de perder três amigos negros, num período de dois meses, assassinados pela polícia na porta da escola, que eu entendi a quem a bala se direcionava. Então ouvir meus amigos e ler sobre isso foi sempre muito importante para mim. Mas ainda não era a prioridade. Ainda.

Eu, uma mulher periférica e branca, só me descobri branca muito tempo depois da escola, depois da universidade, foi só nos meus primeiros meses trabalhando no Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) Interlagos que comecei a entender, de fato, a importância de que, além de trabalhar com direitos humanos, era necessário falar sobre racismo e combatê-lo urgentemente. E foi exatamente em uma reunião do Comitê Contra o Genocídio da População Negra, ouvindo o Douglas Belchior e lendo constantemente o blog dele na Carta Capital, que eu aprendi sobre a história do Brasil.

Escrever sobre o tema é um exercício importante e, como mulher branca, me colocar a serviço das lutas de combate ao racismo, entendendo que a questão racial não é recorte; ela é centralidade para entendermos toda a desigualdade social, a construção das cidades, o genocídio cada vez mais gritante nas periferias que matam centenas de jovens negros e todo o acesso a direitos.

Por isso a branquitude acrítica é um problema e ela ainda precisa, com muita urgência, ser entendida e debatida pelas pessoas brancas. Só assim, reconhecendo privilégios e falando sobre eles, pode ser possível entendermos que não basta usar a frase “não sou racista”. Isso é pouco, precisa de fato fazer a diferença na luta contra a desigualdade racial. O UOL produziu um texto que acho bem necessário para ler sobre a branquitude.

Saí há quase um ano de um trabalho em uma organização branca e classe média, para colaborar na construção da incidência política dentro da Uneafro Brasil, e, na sequência, acompanhar o nascimento da importante articulação que é a Coalizão Negra Por Direitos. Tenho descoberto, então, meu lugar de construção como pessoa branca nas estratégias dentro da política institucional para o combate ao racismo no país. E aprender, antes de qualquer coisa, que o movimento negro brasileiro é protagonista fundamental de vários avanços e direitos no país.

Hoje percebo e provoco cada vez mais que é tarefa de todas as organizações entender que a questão racial é centralidade para qualquer debate, construção de política pública e pesquisas. É uma tarefa não mais apoiar a história racista das elites brasileiras em negar a vida e a dignidade ao povo negro. E reconhecer a importância do movimento negro brasileiro em toda a construção histórica da democracia neste país.

Te convido para ler e ouvir os movimentos negros do Brasil, Estados Unidos, Equador, Colômbia e África do Sul em um Encontro em São Paulo, que começa nesta sexta-feira, 29 de novembro, ainda dentro do mês da Consciência Negra.

 O que é a Coalizão Negra Por Direitos

A Coalizão Negra por Direitos é uma articulação de mais de 100 organizações do movimento negro no Brasil que, desde o início deste ano, tem promovido ações conjuntas para influenciar o legislativo no nível federal com vistas a assegurar os direitos humanos da população negra no Brasil. Além das ações de incidência política nacional, a Coalizão tem articulado apoio internacional e feito denúncias em organismos de direitos humanos e fóruns internacionais.

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Noite dos Tambores: o encontro ancestral de corpos e mentes periféricas http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/noite-dos-tambores-o-encontro-ancestral-de-corpos-e-mentes-perifericas/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/noite-dos-tambores-o-encontro-ancestral-de-corpos-e-mentes-perifericas/#respond Thu, 21 Nov 2019 09:00:37 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=64 Esta semana assino este texto com um grande e importante companheiro de luta, Ronaldo Matos*

Espero de verdade que alguém esteja registrando essa história. Nós estamos também, mas obviamente outras pessoas estão. E começar mais um texto dizendo que ele será escrito colaborativamente com meu amigo e irmão de alma Ronaldo Matos é uma honra imensa. Dispensa felicidade.

Resolvemos escrever este texto depois de estarmos juntos com outros amigos na oitava Noite dos Tambores, na Casa de Cultura do M’Boi Mirim, zona sul da cidade de São Paulo.

É impressionante, ou não, como a gente se reconhece nesses encontros. Chegamos nos espaços de festa nas nossas quebradas e todos estão ali, os mais velhos, amigos, conhecidos, referências, quem estudou com a gente e até quem a gente nem imagina que verá. É assim toda semana no Sarau da Cooperifa, é assim no Sarau do Binho, é assim no Pagode da 27, é assim no Quilombaque, é assim nos espaços de cultura e resistência em nossos territórios pela cidade. A gente se conhece e se reconhece, é bem bonito e potente. E quando você chega na Noite dos Tambores encontra o Binho, o Vaz, o Salloma Salomão, a Suzi, a Naruna, o Allan da Rosa, e tantas e tantas pessoas que nos fazem ser e seguir.

A Noite dos Tambores é presença, resistência e a memória afrodiaspórica que resiste nas periferias da zona sul de São Paulo. O festival de música instrumental acontece há oito anos, reunindo grandes nomes da diversidade rítmica de várias matrizes, entre eles Jongo da Serrinha (RJ), Candombe do Quilombo do Açude da Serra do Cipó (MG), Senu-gal (Senegal), Tambor de Crioula Juçaral do Pretos (SP), Maracatu AZ de Ouro de Fortaleza (CE), entre outros incríveis tambores que tocam nossos corações e não deixam nosso corpo parado.

Essa conexão ancestral leva cada pessoa ali presente a voltar no tempo ou para casa refletindo que seu pai, mãe, vô, vó, tio e tia vieram de estados diferentes, para construir a vida em São Paulo. Nesse processo é inevitável não refletir sobre o fato de a trajetória de vida das matriarcas e patriarcas de nossas famílias, marcada pela necessidade de sobreviver na maior metrópole da América Latina, sofreu ao longo do tempo uma perda de identidade e até mesmo um apagamento de tradições.

Quando a Noite dos Tambores garante o encontro desses moradores com sua origem ancestral, ela contribui para a construção de um museu ou uma galeria de arte territorial, repleta de memórias vivas e intensas dentro das periferias. Como a exposição da arte propagada pelo projeto não é analógica nem digital, ela humaniza e convida todos os presentes a se emocionar com a preservação da história da população negra brasileira.

As memórias afetivas são garantidas pelos efeitos visuais e sonoros que cada instrumento, artista, grupo, cantiga, música ou ritmo gera no coração de cada homem, mulher, jovem, idoso ou criança que estavam nos arredores da Casa de Cultura M´Boi Mirim de maneira única e estruturalmente política.

Ao preservar a memória, garantir o encontro, resgatar uma identidade cultural e um modo de vida ancestral, a Noite dos Tambores também reafirma o seu propósito político de mostrar que todo morador da periferia tem direito à memória do seu povo.

Como todos os movimentos culturais das periferias de São Paulo, toda a construção é feita na falta, ou quase inexistência, de recursos e pela dura dificuldade cotidiana dos moradores. A Noite dos Tambores resistir ainda na zona sul é referência da grandiosidade e importância da cultura como vocação do território. Só quem vive essa noite, e tantas, consegue entender o poder de conexão entre os moradores da região do M’Boi Mirim e de outros territórios distantes. É espaço de troca, ancestralidade, felicidade e lugar de segurança afetiva.

Em tempos em que a cultura no país se torna ainda mais inacessível, seguindo no desmonte das políticas públicas por meio da censura por parte do atual governo, as periferias seguem em resistência, transbordando existência. Nunca foi fácil, os recursos e os incentivos nunca chegaram nas bordas da cidade, nunca foi prioridade, desde então o centro fica com a maior parte do bolo e os artistas mainstream com a cereja.

No comando do microfone, entre uma atração e outra, Renata Prado, da Frente Nacional de Mulheres do Funk, mais um exemplo de movimentação de resistência, que, assim como o samba, que era crime e hoje é patrimônio, e o rap, que era perseguido e hoje está disputando grandes prêmios, o funk veio da periferia negra e é criminalizado. Ela chama atrações históricas para o palco, que descem para o meio do público, abrem rodas, dançam, nos fazem sorrir. E em alguns momentos você se imagina vivendo no melhor lugar que poderia estar e participando da história contata.

Além de experimentar momentos de imensa felicidade, respeito, coração imenso, amizades, referências, tudo isso faz parte de como estamos existindo resistindo dentro de nós e com os nossos. E além de usar essa forma de felicidade para denunciar o desmonte, a censura, a falta de recurso, o genocídio da juventude negra das periferias, cabe a nós desprezar essa política que não tem nada a ver com a gente, com força e luta de quem não tem mais nada a perder, porque nunca foi fácil pra nós.

Então, nessa noite de calor, há ventinho fresco, regada a cerveja artesanal produzida pela quebrada, conversas aleatórias sobre política ou sobre alegrias, um gingado, um dançar, um balanço para fazer o Maliki dormir ao som dos tambores e a música de resistência negra na quebrada, vinda de tantas quebradas urbanas e rurais do país. Vale lembrar que os pais do Maliki, Simone Freire e Dimas Reis, são uma família preta e periférica linda, que saiu da Brasilândia, zona noroeste da cidade, para celebrar a Noite dos Tambores como um espaço de afeto político, cultural e familiar.

E, por fim, deixamos aqui a letra da música de uma mestra Clementina de Jesus, que muito nos ensina, nos protege. E agradecemos aos ancestrais por tanta sabedoria, aprendizado e sabedoria. E agradecemos a existência da Noite dos Tambores em nosso tempo.

Embala Eu – Clementina de Jesus

Embala eu, embala eu
Menininha do Gantois
Embala pra lá, embala pra cá
Menininha do Gantois

Oh, dá-me a sua benção
Menininha do Gantois
Livrai-me dos inimigos
Menininha do Gantois 

Dá-me a sua proteção
Menininha do Gantois
Guiai os meus passos por onde eu caminhar
Vira os olhos grandes de cima de mim
Pras ondas do mar

*Ronaldo Matos é morador do Jardim Ângela, zona sul da cidade de São Paulo. É jornalista educador, pesquisador e integrante do coletivo de comunicação Desenrola E Não Me Enrola. 

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Unidades de Conservação existem, e existimos dentro delas http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/unidades-de-conservacao-existem-e-existimos-dentro-delas/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/unidades-de-conservacao-existem-e-existimos-dentro-delas/#respond Thu, 14 Nov 2019 07:00:40 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=58 É bem comum eu começar meus textos aqui, ou em outros lugares, com uma lembrança de infância. E esse não será diferente, afinal conviver e falar sobre unidades de conservação é meio que minha vida, desde que eu tinha 14 anos, quando eu vi de perto a criação da Área de Proteção Capivari-Monos e depois ajudei a criar e a pensar a Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia, as duas dentro da maior e mais significativa parte da Mata Atlântica da cidade de São Paulo, e essa parte é de uma riqueza biológica muito importante e uma das mais necessárias desse bioma.

Ou seja, nasci na região que quase todo mundo desconhece, porque no imaginário das pessoas a cidade de São Paulo é integralmente cinza, com prédios. Minha participação nos espaços de discussão sobre unidades de conservação, sua importância e como a gente lida com conflitos em um território limite da área urbana, mas muito rural, se misturam. No lugar que a floresta se mistura com a cidade, e a cidade com a floresta. Conviver com contradições, entre precisar valorizar a água, a mata e toda a biodiversidade que nos fazem respirar e entender que a falta de serviços básicos não chega por ali também, é bem complexa e urgente. Precisamos achar meios para que tudo consiga conviver em harmonia, ou pelo menos tentem caminhos comuns.

O que é mesmo Unidade de Conservação?

Nossa Constituição Federal de 1988, há 31 anos, nos assegura a todos, em seu artigo 225 diz claramente que um “meio ambiente ecologicamente equilibrado” e repassa ao poder público a obrigação de defendê-lo e preservá-lo. E uma das formas que a Constituição indica que que esse dever seja cumprido é a “definição de espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos”, quer dizer, indica que o Estado deve criar áreas protegidas e garantir que elas contribuam para a manutenção de um “meio ambiente ecologicamente equilibrado”.

Sendo assim, acordos internacionais aliados à Constituição culminaram no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), ou seja, um sistema que regulamenta e fornece diretrizes de implementação e gestão de uma variante de áreas protegidas no país.

Unidade de Conservação (UC) é entendida como uma porção do território nacional ou de suas águas marinhas que é instituída pelo poder público municipal, estadual ou federal, e possui uma administração pública especial. Essa área precisa ser reconhecida por possuir características naturais relevantes. Por ter características bem diversas em cada lugar que são criadas, pelo poder público, as UCs (como chamamos carinhosamente as unidades de conservação) possuem várias categorias de UCs.

As unidades podem ter orientações administrativas diferentes umas das outras, umas mais algumas mais restritivas, voltadas para pesquisa e conservação, outras para visitação e atividades educativas, e ainda, algumas que conciliam habitação e uso produtivo e urbano do território.

Povos e Comunidades Tradicionais

Além da grande quantidade de biodiversidade, as áreas protegidas também constituem muitos modos de vida humanos, manifestações culturais e técnicas de existência no ambiente. Ou, melhor dizendo, é justamente na interconexão entre estas duas dimensões, humanas e não-humanas, que reside a singularidade e riqueza dos biomas.

As comunidades tradicionais que habitam esses locais ainda vivem entre uma cruzada de conflitos, principalmente nas áreas ditas de proteção integral, ainda que, na maior parte das vezes sejam esses atores locais os verdadeiros responsáveis pela garantia de integridade dessas áreas de conservação, tendo resistido por gerações à expansão das frentes de desenvolvimento predatório, que convertem florestas e outros ambientes naturais em solo infértil e paisagem degradada. prometo que no próximo texto aprofundaremos mais sobre a importância dos povos e comunidades tradicionais, em textos anteriores comecei a registrar um pouco sobre a extrema importância da existência deles dentro dos territórios e em tempos como estamos precisamos deixar isso cada vez mais colocado.

Todo mundo sabe, o Brasil é um dos países com maior biodiversidade no mundo, por enquanto, claro. E diverso seja em tipo de plantas, animais. E, claro, grande produtor de água e rico em riquezas minerais. Só por aí começamos a entender a razão de tanto desmatamento, construção de barragens de minério, uso da água para grandes indústrias e morte de lideranças ambientais e comunidades tradicionais nas últimas décadas no país.

E por isso nos últimos anos temos grupos diferentes na sociedade, por um lado setores ligados a visão desenvolvimentista, e uma necessidade de se explorar crescentemente o ambiente para um desacelerado crescimento econômico. E, por outro, a defesa que tais recursos tem valor maior do que qualquer acordo econômico entreguista.

O meio ambiente é, além de fonte de recursos, importante na conservação do fluxo das chuvas, no clima, estabilidade dos solos e nos chamados ciclos biogeoquímicos, que são processos que ocorrem na natureza para garantir a reciclagem de elementos químicos que retornam de novo pra gente. Entre os ciclos estão o oxigênio, o carbono, do nitrogênio e o fósforo. Uma informação importante sobre os processos ecológicos e geológicos é que não seria possível haver agricultura, ou ar e água próprios para nossa utilização sem eles.

Outro ponto de alerta é que, além de tudo isso, as contribuições ambientais para a paisagem, de turismo e de lazer são essenciais, sem contar a relevância sociocultural ou até espiritual que apresentam para populações tradicionais como indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Está tudo conectado, a natureza é um ciclo da vida e da condição humana a existência da natureza.

A ausência do Estado na preservação, conservação e fiscalização de biomas afeta diretamente as populações, e diretamente as comunidades tradicionais a as periferias das cidades. Ter porções de florestas nas grandes cidades é algo cada vez mais raro e difícil no país. É urgente e necessário em tempos de desmonte de todas as políticas públicas existentes que a gente reforce e pressione o governo para que nossos territórios sejam protegidos de óleo, de desmatamento, de espaços para mineradoras e da contaminação das nossas águas.

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A periferia está criando políticas públicas e não dará nenhum passo atrás http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/a-periferia-esta-criando-politicas-publicas-e-nao-dara-nenhum-passo-atras/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/a-periferia-esta-criando-politicas-publicas-e-nao-dara-nenhum-passo-atras/#respond Thu, 07 Nov 2019 07:00:35 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=52 No meu imaginário era sempre como as periferias e os lugares mais afastados do centro são ruins, era como meu bairro era perigoso ao anoitecer, era um terror, periferia não presta e quem mora lá tem que sair, tem que ser alguém na vida e procurar coisa melhor.

Veja, as periferias, as diversas que o Brasil possui, foram criadas para não existirem, para estar no canto, não atrapalhar ou interromper. E toda narrativa criada em torno dela sempre foi do olhar da elite demonizando e colocando a periferia como o canto desnecessário, não criativo, nada bonito e abandonado.

Mas o que a gente vê nos últimos 10 anos é um marco da organização de diferentes sujeitos periféricos que não aceitam que outros escrevam nossa história ao passo em que pautamos, contrapomos e conectamos protagonistas que constroem uma outra narrativa possível. E quando digo isso me lembro de uma fala do meu querido amigo e professor Douglas Belchior, em um evento realizado pelo Instituto Ibirapitanga em 2018.

Abre aspas então…

Não é verdade que não há reação política e reação popular acontecendo no Brasil. Está acontecendo, é foda, é incrível. É muito poderoso. Não tem um bairro nesse país que não tenha alguma organização da população, em especial de jovens, em especial de mulheres, que organizam a liderança das iniciativas de ação política pelo país afora. No bairro mais periférico, mais pobre, mais miserável, onde o Estado só chega com a polícia, tem organização da juventude ali. Não está é num formato que estamos acostumados [a ver]…

Exatamente isso: estamos citando os nossos, que escrevem, formulam, pensam política, e estão construindo nas bases e contando e registrando a história.

A disputa está posta também na comunicação periférica, na grande quantidade de coletivos criado em cada margem da cidade, por razões distintas e com forças e objetivos também diferentes, mas que na ponta se conecta. Por essa razão, criamos o Fórum Comunicação Territórios, uma pesquisa que mapeou 97 iniciativas de comunicação, sejam elas pessoas, coletivos ou organizações sociais e culturais, sempre com recorte de território: esse movimento precisava estar em alguma das periferias da cidade de São Paulo e atuar a partir dela.

Afinal as articulações precisam começar pela base, ou seja, por quem faz comunicação nos territórios e isso já acontece há mais de três décadas em São Paulo. O que nós precisamos fazer agora é organizar os conhecimentos que são fruto desse trabalho, bem como suas contribuições para transformações sociais conectadas ao direito à comunicação, para ampliar esse debate com o poder público e a sociedade civil.

Produzimos, então, a pesquisa “Mapa do Jornalismo Periférico: Passado, Presente e Futuro”, que apresenta um contexto histórico sobre a relação das iniciativas de comunicação com seus territórios de atuação e as políticas públicas.

A pesquisa é o início da construção de um projeto de lei e, para isso, nós temos primeiro que articular os comunicadores atuantes nas periferias e entender se faz sentido para eles a construção de uma lei de fomento à comunicação e suas diversas linguagens.

Neste contexto, esse estudo é o início de uma resposta coletiva para esse propósito, e deixando público as iniciativas, o tamanho dessa rede e a potência de criação e conexão política.

O Fórum de Comunicação e Territórios é uma iniciativa de coletivos e comunicadoras, entre eles estão Periferia Em Movimento, Desenrola E Não Me Enrola, Historiorama, Preto Império, Mariana Belmont (eu) e Gisele Brito. E a coalizão que resultou na criação do Fórum de Comunicação e Territórios faz parte de um interesse em comum em produzir conhecimento sobre o campo da comunicação nas periferias, que reverbere em diálogos políticos e públicos sobre a construção de um futuro projeto de lei de fomento à comunicação.

No país onde as ações do poder público são centralizadas, burocráticas, pouco transparentes e muitas vezes apresentadas no varejo, é fundamental que as políticas públicas voltadas para iniciativas periféricas sejam formuladas e acompanhas por esses sujeitos, fazendo a política vir dos territórios para o centro.

Os coletivos de comunicação devem protagonizar nessa formulação de novas políticas públicas para organização e produção de conteúdo jornalístico sobre essas regiões da cidade, constituídas historicamente em condições sociais de desigualdade de raça, classe e gênero que se reproduzem, inclusive, no ambiente profissional da comunicação.

Foram seis meses de um trabalho intenso, bonito e dentro dos territórios, ouvindo os coletivos, as pessoas, olhando para as pessoas e entendendo uma história política de comunicação e resistência nas periferias da cidade de São Paulo, e duas dinâmicas distintas.

Esse trabalho será um importante instrumento para pautar importantes diálogos em diferentes esferas do poder, vamo construir política pública a partir da rua, das vielas e das margens. E isso é história, estamos pautando e escrevendo a história, e não daremos mais nenhum passo atrás.

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Jovens transformando seus territórios e conectando pontes pelo país http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/jovens-transformando-seus-territorios-e-conectando-pontes-pelo-pais/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/jovens-transformando-seus-territorios-e-conectando-pontes-pelo-pais/#respond Thu, 31 Oct 2019 07:00:23 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=46 Uma amiga me perguntou esses dias: “Mari, mas desde quando esse interesse por política? Eleições? Participação?”.

Na hora respondi muito rápido, falei o que me veio à cabeça. Era muito nova e eu já acompanhava minha mãe ou meu padrinho até a escola que votavam, era sempre uma festa. Estava em casa, acordava bem cedo, meu padrinho com a melhor roupa, camisa passada para cumprir um “dever”, escolher seus representantes pra os próximos quatro anos. A gente assistia junto ao horário eleitoral gratuito na TV, fazia comentário, ria bastante com o Enéas gritando e achava importante acompanhar. Eu era a companheira do meu padrinho para esse momento.

Fui crescendo bem interessada em toda essa coisa política, eu morava dentro de várias unidades de conservação, próximo de terra indígena, uma diversidade de pessoas e cultura, nasci ali. Tenho na memória os comícios, os artistas que subiram no palco com políticos como Paulo Maluf, Pitta e outros conhecidos. Dentro da minha cabeça essa mistura de artistas conhecidos e nosso imaginário que “político nenhum presta” não conectava. Nascer em bairro de periferia é conviver com a visita de algumas figuras conhecidas a cada dois anos, os mesmos sobrenomes de famílias que usam a política como atividade profissional, placas e zero conexão com a realidade do território. Difícil não colar na maioria da população, já marginalizada na dinâmica da cidade, que política realmente não se deve discutir.

Mas eu segui acompanhando. Na escola me envolvia nos projetos que conseguia participar, criando coletivos para fomentar a cultura do território e redescobrir a memória da região, depois participei da criação da Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia, com 18 anos, e já estava no conselho da Área de Proteção Capivari-Monos. Em casa a conversa era que nada disso mudaria, mas me davam força e algum dinheiro para condução da Colônia até a sede da Subprefeitura de Parelheiros, lugar onde eu passava boa parte dos meus dias em reuniões, conselhos, grupos, construções e conhecia geral. Eu estava realmente mudando algo, na minha cabeça pelo menos.

Ser jovem é dureza, e querer participar da vida ativa da política, seja ela institucional ou apenas existir no mundo é difícil. Ser jovem é ser um sujeito com valores, comportamentos, atuação política, interesses e necessidades bem diversos e bem abrangentes, ainda mais vivendo em um país onde a polícia brasileira, que constitui o braço armado do Estado, matou em cinco anos mais do que a polícia norte-americana em 30 anos de trabalho. Em média, cinco pessoas são assassinadas pela polícia diariamente no país. Contudo, o risco de ser vítima de homicídio doloso não se dá de modo aleatório e indiscriminado — existe um perfil explícito dos principais alvos: jovens (53%), negros (77%), do sexo masculino (93%). Isto fica evidente na declaração de que a “cada 23 minutos ocorre a morte de um jovem negro no Brasil” (Relatório Final da CPI no Senado, 2016, p. 32).

A gente respira fundo pra contar que nos últimos meses ganhamos uma rede potente e transformadora de jovens, que lideram projetos que vão muito além de reivindicar a representatividade e disputar espaços de participação. O que eles fazem é identificar barreiras que são invisíveis para uma parte da população, mas que marcam o cotidiano de amplas parcelas, e criar estratégias para, coletivamente, remover estas barreiras. Mais do que isso, suas iniciativas visam transformar a sociedade como um todo, engajando mais e mais pessoas em direção a objetivos comuns, que enfrentam a degradação socioambiental e a concentração dos processos decisórios.

Essa conexão foi possível por meio da Ashoka Brasil, que criou os Jovens Transformadores pela Democracia e juntou um grupo maravilhoso de agentes de vários cantos do país com lutas e presenças diversas nas lutas pela democracia das cidades. São eles: 

Ana Paula Freitas, 32 anos, nascida em Belo Horizonte, é advogada, co-idealizadora do projeto Solta Minha Mãe, ação de enfrentamento ao encarceramento em massa de mulheres e mães em Minas Gerais. Integra as Pretas em Movimento, em Belo Horizonte, iniciativa de ampliação do protagonismo de pessoas negras, em espaços de poder. E atualmente é  Coordenadora-Executiva do Projeto Aliança, incubado no Instituto Sou da Paz em São Paulo. Projeto nacional que consiste na coordenação de ações jurídico e judicial para garantia de liberdades e direitos individuais. 

Aquataluxe Rodrigues, 31 anos, nascida em Recife, criou a Comissão da Juventude do Olodum em Salvador, para promover ações inovadoras que fortaleçam a capacidade empreendedora dos jovens e os aproximem da política e assim os empoderem, numa perspectiva que relaciona economia, democracia e desigualdade.

Ednei Arapiun, 20 anos, percebeu que a população indígena, além de ser alvo das disputas fundiárias, enfrenta barreiras institucionais para o acesso aos serviços básicos. Ednei foi eleito coordenador do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, inaugurando a liderança jovem nos espaços de representação dos povos indígenas na luta por direitos à terra, à estrutura de saúde e educação nos territórios indígenas e ao acesso à educação superior pública.

Gelson Henrique, 20 anos, é estudante universitário de Ciências Sociais, ativista, pesquisador da área de antropologia política e juventudes, e integrante da Caravana Itinerante da Juventude (CI-Joga). Percebendo a baixa participação social e política dos jovens de periferias e favelas, Gelson criou a Caravana Itinerante da Juventude (CIJoga), junto com mais quatro amigos de diferentes periferias do Rio de Janeiro. O CIJoga é um conjunto de ações destinadas às escolas públicas (nesse primeiro momento) localizadas em periferias urbanas, cujo objetivo é estimular os jovens a participarem de instâncias coletivas de decisão, fazendo as juventudes se entenderem como potência transformadora da política brasileira.

Bruninho, 25 anos, é estudante de Pedagogia. Percebendo que o jovem da periferia ocupava lugar muito distante dos debates políticos, Bruno criou com colegas o Núcleo de Jovens Políticos, no Jardim Vera Cruz, na região da M’Boi Mirim, com o objetivo de decodificar as narrativas do campo e mostrar que política também é lugar de jovem. Ele também é um dos criadores do Coletivo Encrespados, que discute e reflete como se pode pensar e promover uma educação antirracista em escolas públicas e espaços educacionais. 

Iago Hairon, 26 anos, baiano, cientista social e militante climático apaixonado por qualquer movimento que nos conecte com a natureza. Começou a trabalhar com mudanças climáticas com 13 anos no Movimento Bandeirante. Foi conselheiro jovem global da Plant-For-The-Planet entre 2013 e 2014, onde se destacou por sua capacidade de liderança e empreendedorismo social. Foi um dos participantes do Climate Leadership Corps, treinamento de líderes climáticos com Al-Gore. Atualmente é vice presidente da Plant For The Planet no Brasil e um dos coordenadores gerais do Engajamundo, rede de jovens que tem como missão conscientizar o jovem brasileiro de que mudando a si mesmo, seu entorno e se engajando politicamente ele pode transformar sua realidade.

Juliana Marques, 33 anos. Percebendo a sub-representação das mulheres negras na política institucional, uniu-se a outras mulheres e criou o Movimento Mulheres Negras Decidem. O objetivo maior é aproximar as jovens negras da política e apoiar as que desejam ocupar espaços institucionais. Como uma das estratégias criaram a plataforma http://mulheresnegrasdecidem.org/ com narrativas centradas em dados para contrapor os mitos envolvidos na questão. A luta é pelo avanço dos direitos sociais por meio do fortalecimento dos processos eleitorais.

Mari Belmont é jornalista, nascida em Colônia, periferia rural da cidade de São Paulo, se define como esticadora de pontes. Percebendo a necessidade da ocupação de ativistas e dos jovens das periferias na política institucional, Mariana co-construiu a formação do Ocupa Política, trabalha com projetos de cidades e mudanças climáticas e assina este texto que você lê, nesse espaço importante de ocupar. Faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Wesley Teixeira tem 23 anos, é morador da Mangueirinha em Caxias (Baixada Fluminense). Com 12 anos começou a militar no movimento secundarista; no momento atua no pré-vestibular popular +Nós, que tem 17 turmas na periferia do Rio com alunos periféricos, em sua maioria negras e negros. Através do movimento negro articula questões como dignidade e participação ativa da juventude nas cidades. Faz parte também do Voz da Baixada e PerifaConnection, é evangélico pentecostal, flamenguista e não abre mão do cabelo Black.

Isabela da Cruz, 29 anos, é estudante do curso de direito, licenciada em história, ativista e pesquisadora quilombola. Ao perceber a violência crescente contra as populações quilombolas no país, Bela se engajou em pautas relevantes para essa população, atuando junto à juventude quilombola e ao movimento de mulheres negras, através da FECOQUI – Federação Estadual de Comunidades Quilombolas do Paraná – PR (vinculada à CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas).

Somos dez jovens, de diferentes lugares do país, que se conectam para dar potência aos nossos trabalhos nos territórios. Nos encontramos pela primeira vez em Salvador, em agosto, com nossas referências mais velhas, com o ar e a história da Bahia. Colocando sempre como centralidade o debate do combate ao racismo, a importância da educação e a defesa dos territórios tradicionais, entre o urbano e o rural.

Comunicação popular e periférica, debate sobre mudanças climáticas com as periferias, defesa de territórios indígenas e quilombolas, justiça criminal, educação, juventude, ocupação dos espaços da política institucional, favelas, quilombos, periferias, cidades e o que nos atravessa diariamente, sobre sobrevivência e resistência em todas as partes de um país como o Brasil.

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E se a gente parar tudo e ouvir? http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/e-se-a-gente-parar-tudo-e-ouvir/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/e-se-a-gente-parar-tudo-e-ouvir/#respond Thu, 24 Oct 2019 12:55:13 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=41 Talvez esteja na hora de parar, largar os tratores e começar de novo

Era dia 6 de outubro de 2018, eu estava na Colônia [zona Sul de São Paulo]. Eu ainda voto no meu bairro, era véspera de dia de eleição. Dia de escolher nosso novo presidente da República e outros representantes para o legislativo. Eu sempre gostei muito de votar, mesmo antes de votar eu acompanhava minha mãe e meu padrinho até a escola e em geral acompanhava as escolhas deles de perto. Antes de dormir finalizei o livro do Davi Kopenawa “A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami”. Carreguei aquele livro enorme até Parelheiros, porque eu estava fascinada com aquele registro escrito. Era incrível cada trecho.

Trechos sublinhados, pensados, anotações para pensar depois mais a respeito e conectar tudo que o tempo da vida não deixa fazer. Mas hoje sentei para escrever este texto e me lembrei dele, talvez porque tem muita gente falando desse livro nos últimos dias. Ele foi citado no “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”, de Ailton Krenak. Eu ainda não li, quem sabe até este texto ser publicado, tô curiosa.

Abri o livro no texto 8, O céu e a floresta. Vou transcrever o começo:

“Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameaçadores, mulheres e crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na época. Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do Rio Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem próximos. Era mesmo muito assustador! Aos poucos, todos se puseram a gritar e soluçar de pavor no acampamento: “Aë! O céu está despencando! Vamos todos morrer! Aë!” Eu também tinha medo. Ainda não havia me tornado xamã, e perguntava a mim mesmo, muito inquieto: “O que vai acontecer conosco? Será que céu vai mesmo cair em cima de nós? Vamos todos ser arremessados para o mundo subterrâneo?”

E este longo trecho começa a ecoar na minha cabeça depois do turbilhão que passamos no Brasil, era 8 de outubro de 2018, acordei numa ressaca emocional absurda e com um medo absurdo, era como se já tudo tivesse desmoronado. A sensação ficou ainda pior no segundo turno, no dia 28 de outubro. Era como se o céu estivesse caindo. Era como se a gente estivesse deixando tudo ir olhando pela janela. Foram realmente dias tristes.

Bem, são marcas na história. O livro do Davi é marca para nossa história e para a história dos povos originários. As eleições de 2018 marcam a história política de desmonte do país. Em especial da política ambiental brasileira, que segue colecionando uma porção de abandono e destruição do que sobrou.

A lista de descalabros é imensa. Desmonte de todos os órgãos de fiscalização, conselhos participativos de unidades de conservação, projetos organizados de proteção aos principais biomas do país, barrando financiamento de projetos históricos de defesa da Amazônia, a lista é infinita. E segue crescendo. E parece não haver um caminho viável possível. É chuva de cinzas, é desmatamento, temperaturas altíssimas nas cidades ou a instabilidade delas. Parece que estamos caindo de um abismo sem fim e não tem como voltar atrás.

Eu nasci e cresci a poucos quilômetros de uma importante terra indígena da cidade de São Paulo, cresci usando o mesmo transporte público que os guarani que voltavam do centro, onde vendiam suas peças artesanais. Cresci participando de atividades na escola deles. Cresci e aprendi com líderes, muitos da minha idade, da terra Tenondé Porã – é a aldeia com a maior população Guarani Mbya no Brasil. E isso me trouxe ensinamentos de respeito e escuta preciosos.

Então, eu acho que hoje o ensinamento é esse. Qual comunidade, pessoa, referência, família ou registro histórico você tem lido ou escutado sobre a importância de sobreviver para proteger as próximas gerações do fim da natureza? Você conhece a história e importância dos quilombos no país? Das populações ribeirinhas? Dos indígenas? Passamos da hora, é urgente entender e se somar a essas lutas históricas que nos ajudaram a chegar até aqui.

A escrita do Davi nos traz o modo limitado que nós brancos fazemos questão de escrever a história. A gente escreveu uma história que não é nossa, a gente construiu pontes desnecessárias e cortou florestas por uma ambição que internamente nem sabemos o que significa. Então, que tal a gente parar agora? E começar a ouvir e ler quem veio antes?

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Porque Nóis é ponte e atravessa qualquer rio http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/porque-nois-e-ponte-e-atravessa-qualquer-rio/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/porque-nois-e-ponte-e-atravessa-qualquer-rio/#respond Thu, 17 Oct 2019 12:51:10 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=37 Pensar em todas as formas de viver e sobreviver nas periferias das cidades é fazer um exercício de entender que estamos, nós mesmos, criando processos, inteligências, tecnologias, espaços de lazer e cultura, que estamos cuidando dos nossos jardins e pensando as cidades que queremos e sonhamos. 

É um grande trabalho.

Antes de nós muitos vieram, criaram sambas, saraus, espaços de leitura, centros de cuidados, coletivos, rádios. E cuidaram para que os espaços de participação fossem ocupados por quem já está na caminhada há uns bons anos. 

Tenho refletido e falado sempre sobre o samba e o pagode de comunidade serem políticas públicas. Tony Marlon escreveu esses dias sobre os Racionais MC’s serem a primeira política pública que conectou as periferias da zona sul com o restante da cidade de São Paulo. A lista é infinita, cada história é única e importante para ser contada por nós mesmo. E é cada história bonita. 

Seguimos perdendo, mas dá pra ver que estamos ganhando também.

Nunca foi fácil, nunca foi de boa viver nas periferias, a luta pela sobrevivência da cultura e da vida é constante, é permanente, não largamos a mão. E mais do que nunca precisamos nos cuidar, precisamos cuidar uns dos outros. Segurar nossas mãos, olhar de verdade um para o outro, estar disposto a respeitar e cuidar se precisar.

No último domingo perdemos o poeta e Cofundador do Sarau Cooperifa, Marcos Pezão.

Pezão junto com Rose Doria, Sérgio Vaz, Binho, Suzi Soares, Maria Vilani e tantos ensinaram e ensinam tanto pra gente todos os dias. Os saraus são aquele fôlego para a sobrevivência, são conexões com os nossos, nossos laços de amizades construídos ali. Nos ensinam a ouvir, respeitar e escrever nossa história em forma de poesia.

O Sarau, assim como outros espaços de conexão, felicidade, troca, rede de apoio e sorrisos, é a revolução e não vai acabar. Porque nóis é ponte e atravessa qualquer rio.

Obrigada Marcos Pezão, por tanto e por tudo.

NÓIS É…

por Marco Pezão

Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
Conjugue esse verbo
Errada consonância
Na maneira de dizer…
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
O nóis pra nós
É singular
O nóis pra nós
O plural é pessoal
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
Felicidade
Individuo
Coletividade
Não acredite
Que a esperança
Apareça sem cultivar
Não odeie
Ame sua própria idade…
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
Toque de lado
Receba na frente
Invada a área
E faça o gol…
É bola
Tá na malha da gaiola…
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
Não se subestime
Mostre força
Encare o real
Deixe de lado o mal
Sem ser bom de todo
Senão o mundo te faz tolo
E ninguém é biscoito
Pra se deixar comer…
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
Busque outra margem
Ser esperto não é vadiagem
Não importa cor, nem dor
Vermelho, Branco, Moreno, Amarelo, Mulato, Mameluco
Seja maluco numa boa
Assuma o leme
Atravesse a ponte…
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…
Boi, boi, boi, boi da Ponte Preta
Ensine essa criança
A não ter medo de careta…
Nóis é Ponte e atravessa qualquer rio…

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Quem está nos salvando de nós mesmos? http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/quem-esta-nos-salvando-de-nos-mesmos/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/quem-esta-nos-salvando-de-nos-mesmos/#respond Thu, 10 Oct 2019 13:04:45 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=33 Quem mora nas periferias das cidades brasileiras bem sabe o que são mudanças climáticas, talvez só não usem esse termo para contar que as enchentes, o tempo seco, a falta de água, problemas de saúde causados pela falta de saneamento básico são recorrentes em seus territórios.

O desmatamento descontrolado, mesmo que o atual governo minta sobre os dados científicos, corta as florestas, expulsam e exterminam povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares. Isso e mais um grande número de desgraças ambientais acontecem porque o planeta não para de esquentar, barragens de mineradoras irregulares estão matando milhares de pessoas, o gelo está derretendo, a Amazônia e o Cerrado pegando fogo, Mata Atlântica sendo comida pela fome desenvolvimentista.

É inegável que o planeta está em chamas, e os países mais pobres e com baixa ação para reduzir as emissões são os que mais sofrem com os desastres, que, como sabemos, começam nas margens das cidades e exterminam comunidades e povos tradicionais. Não temos o que comemorar! Estamos diante do abismo, a situação atual é uma bomba relógio prestes a explodir. A sensação térmica que sinto olhando para o horizonte do planalto central me faz acreditar nisso, e também essa fuligem de queimadas que tenho respirado esses dias em Brasília.

Quem resiste por nós diante do cenário do fim do mundo?

De onde eu venho, mais de 400 agricultores familiares resistem à falta de chuva, ao calor que queima as folhagens, às grandes obras com a falácia da chegada do desenvolvimento, mas o alimento maior que eles produzem em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, é a água para 24% da cidade. Ao lado deles, os Guarani preservam e permanecem defendendo seu território, a maior terra indígena da região sudeste, com 15.969 hectares de extensão, a Tenondé Porã. Território privilegiado por cachoeiras, extensa biodiversidade e um ar de invejar qualquer outro canto da cidade de São Paulo, da ponte pra lá.

Então temos a teoria de que quem protege o meio ambiente para que a qualidade de vida de todo o país exista está na margem? Não tenho a menor dúvida, além de muitas organizações não-governamentais sérias, que fazem um trabalho de pesquisa, incentivo e fiscalização pelas áreas mais importantes do país.

O modo de viver quilombola, caiçara, indígena, ribeirinha e de agricultores familiares faz parte da história do Brasil. Sem as comunidades tradicionais, o país viveria em tempos ainda mais escassos de recursos naturais e à beira de um intenso colapso ambiental nos centros urbanos e rurais de todo o território nacional.

O Estado brasileiro precisa se responsabilizar, passou da hora e do limite o descaso e a forma predatória que os governos aceitaram o desmatamento e a falta de planejamento urbano conectado com a proteção ambiental nas cidades. Demarcação de territórios e titulação de terras é dívida histórica deste país com quem chegou antes e resiste junto com as florestas. É urgente, é prioridade.

E se os governos anteriores nunca colocaram a questão ambiental brasileira como tema central, o governo atual planeja uma política predatória e calamitosa, se nega acreditar na ciência, nos fatos e a cuidar do problema. O governo Bolsonaro é a combinação criminosa do autoritarismo e o fanatismo ideológico de toda a sua turma, um descaso com a população que o Estado deveria proteger.

Floresta é água, água é floresta, cidade é floresta, floresta é cidade.

Toda a nossa existência passa por quem veio antes de nós, quem criou tecnologias inovadoras de preservação e proteção da terra, da água, das matas. Só por isso ainda estamos aqui. Davi Kopenawa nos alerta sobre a floresta viva que tem coração, coragem, respira, sente dor e sofre com suas árvores derrubadas e a terra queimada, mas cujos lamentos não são escutados pelos ouvidos surdos dos brancos, que a destroem em nome do desenvolvimento ou de uma ganância que parece não ter fim.

“O valor de nossa floresta é muito alto e muito pesado. Todas as mercadorias dos brancos jamais serão suficientes em troca de todas as suas árvores frutos, animais e peixes. […] Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob as águas e também todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder restituir o valor da floresta doente.” – Davi Kopenawa

O fato é que não há desenvolvimento de concreto que resista em um país sem ar, sem incentivo à agricultura, permanência de seus povos na preservação de suas terras, sem florestas. As pessoas estão morrendo e precisamos com urgência ouvir e aprender com nossos antepassados, precisamos partilhar desse partilhar desse movimento de permanência de preservação ancestral, precisamos nos responsabilizar AGORA.

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Seria melhor mandar ladrilhar? http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/03/seria-melhor-mandar-ladrilhar/ http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/2019/10/03/seria-melhor-mandar-ladrilhar/#respond Thu, 03 Oct 2019 14:18:02 +0000 http://marianabelmont.blogosfera.uol.com.br/?p=20 No meu segundo texto por aqui resolvi arriscar e começar escolhendo o título, que não é originalmente meu, ele é do livro “Seria melhor mandar ladrilhar? – Biodiversidade: como, para que e por quê”, organizado pela ecologista Nurit Bensusan. Ganhei o livro da Nurit de um amigo em 2014, e ele segue sendo emprestado e comigo pelos caminhos da vida.

Explico. 

Nasci em meio a maior e mais significativa parte da Mata Atlântica da cidade de São Paulo, localizada na região de Parelheiros. Vale ressaltar que essa porção é de uma riqueza biológica muito importante e uma das mais significativas da Mata Atlântica, mesmo estando na maior metrópole das Américas. Eu nasci dentro dessa porção, mais especificamente dentro da Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia, criada em 2006, e tive a honra, mesmo muito jovem, de fazer parte da criação e dos processos participativos da unidade. E antes já existia a APA Capivari-Monos criada em 2001, a primeira área de proteção ambiental da cidade.  

Eu nasci no quintal com muitas árvores, criação correndo no chão de terra, cresci em meio à natureza, com referências de mulheres agricultoras e da horta do meu avô. Eu estava há exatos 52,6 km do Parque Ibirapuera, mas nossos passeios aos finais de semana sempre foram nas cachoeiras espalhadas pelo extremo sul, nas bordas onde a cidade começa. Cachoeira do Jamil, Poço das Virgens, piquenique no sítio dos Piolli e tantos lugares que parecem fora da rota normal para quem mora da ponte pra lá, mas para nós, ainda crianças, era a coisa mais divertida que tínhamos para fazer.

Quem conhece Parelheiros sabe: é quase sempre um frio de cortar, a garoa fina bonita, mas muitas vezes perturbadora, e, se você segue a estrada ao encontro do Rio Monos, vai sentir mais frio que em qualquer lugar da cidade de São Paulo. Uma turma de sorriso fácil e suado mora na maior Subprefeitura da cidade de São Paulo, com o menor orçamento e com falta de áreas de lazer, cultura e um hospital parado há mais de 3 anos, daquelas promessas que conhecemos bem.

Apesar de ser um paraíso dentro de uma metrópole, Parelheiros sofre com a pressão da urbanização constante, grilagem de terrenos e ocupações que afetam diretamente o aumento do desmatamento na região. A “disputa” entre a real necessidade da preservação ambiental e os pedidos por desenvolvimento do imaginário dos grandes centros urbanos, como shoppings, lojas e bonitas vitrines. Entendem a chegada das unidades e dos parques como um impeditivo para esse desenvolvimento na região. Quem nasce e vive lá entende que vive dentro de um território privilegiado pelas questões ambientais, mas com grande nível de desigualdade social.

Conto isso com um orgulho danado no peito, de quem aprendeu na escola pública sobre o bairro onde morava, sobre a importância da preservação e da história da região. Mas conto, sobretudo, para lembrar que a pauta ambiental e sua defesa ainda está distante e em sua grande parte centralizada com a elite brasileira. Grandes organizações são as que detêm a discussão, sem priorizar que a questão ambiental precisa falar sobre classe, racismo, territórios em disputa, comunidades e povos tradicionais e desigualdade de gênero. Não se pode discutir mais a crise do clima sem trazer essa discussão para ser debatida junto com os territórios periféricos, rurais e urbanos. Passou da hora de entender a importância e a urgência. 

Trago também porque talvez a pauta ambiental tenha se potencializado nos últimos tempos, com um governo querendo destruir a Amazônia e fuligem de fumaça de suas queimadas criminosas chegando à região sudeste. Muita gente que jamais se preocupou com a questão ambiental ou com o clima que oscila sempre entre muito frio e muito quente no outono começou a perceber que algo de errado não está certo. E não entende que as florestas, independentemente do seu bioma, estão conectadas e dispostas fazer o planeta girar. Triste. 

Seria melhor mandar ladrilhar? O poder econômico quer abrir caminhos para um desenvolvimento sem limites, sem respeito aos territórios. Mandar ladrilhar é orientação dos cafonas, dos homens brancos sentados em suas caixas de vidro dando ordem para mandar cimentar os quintais e ladrilhar as florestas ainda resistentes nas cidades. A necessidade para a vida nos territórios, inclusive os urbanos, passam pela natureza. Tudo se relaciona, está conectado. Precisamos salvar a natureza das cidades, e é urgente! 

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