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Rios e mares nos conectam com as florestas do mundo

ECOA

07/02/2020 04h00

Foi com uma bebida gelada de seriguela, fruta nativa do Brasil (cerrado e caatinga), o nível de mar até os 1.200 metros de altitude, ô loco, e uma ótima pedida para tomar olhando para o mar da Bahia, que pensei sobre o texto de hoje. Inicialmente, e para variar bastante, o texto era sobre outra coisa, mas minhas férias me fizeram mudar de ideia.

O mar é uma imensidão que nos conecta com o mundo. Já conseguiu entrar no mar, fechar os olhos e só ouvir a onda quebrar na areia? Abra os olhos e olhe onde ele termina, é água que não acaba mais, é infinito de vida. Tenho mesmo a impressão que o mar é infinito, que se conecta com outros mundos possíveis, outros povos, outras tradições, temperaturas, biomas, tudo com muita ancestralidade. Hoje eu pensei que queria ser o mar, cruzando na rebentação e olhando a terra de frente.

No mar o corpo é brisa, é no mar que o corpo se entrega, as pernas flutuam, os braços estão soltos, prontos para voar. Você abre os olhos e se conecta com o mais profundo da natureza. Água é uma coisa de louco mesmo, ela mexe com a gente, por dentro e por fora.

Entrar pela primeira vez no bar da Bahia foi isso, imensidão, e deixar o mar entrar, cada ponta que encontra a areia é diferente, chega e volta diferente. Parece com a gente, afinal somos natureza, mas perto do mar não somos nada. Eu me obrigo a sentir o tempo mais lento, o mar leva meu corpo a dançar, a mata enfeita meu olhar, estamos com o espírito atento e o corpo dançando. O mar alimenta.

Há uns anos conheci o encontro do mar com o rio, na Ilha do Marajó, e o encantamento foi instantâneo, como poderia o mar salgado encontrar o rio doce, assim, como duas pessoas que se encontram para dançar e nem se conhecem tão bem. Me lembro de sentar na areia e ficar por horas observando aquele movimento de conexão.

Outra coisa que me encanta são os igarapés, quem nunca nadou em um igarapé precisa resolver isso e viajar logo para a Amazônia, ele é um curso d'água amazônico, que nasce dentro das florestas, a maioria dos igarapés tem águas escuras semelhantes às do Rio Negro, um dos principais afluentes do Rio Amazonas. Os igarapés amazônicos constituem parte integrante e essencial no funcionamento da floresta, pois funcionam como corredores ecológicos. Imaginar só a floresta criando água pra gente nadar, água geladinha, limpa e tão necessária para a natureza.

Todas as águas se comunicam, em algum momento se cruzam pelos biomas, um acaba aqui, outro ali quando o outro começa. Não há nada como nadar nas águas criadas pela natureza, seja elas no mar, no rio ou no igarapé. Imaginar só viver em cidades com rios limpos, cidades com mar aberto e acesso para todos. Seria as águas limpas atravessando as pessoas, abraçando as cidades e dando o clima, lazer e felicidade ideal para a natureza e as pessoas.

A partir de hoje então, pisa no mar, deixa ele movimentar seu corpo, pisa na areia e olha a imensidão, gira e espia que a floresta olha para o mar com olhar de agradecimento, e vice e versa.

Só se conhece o Brasil depois de conhecer os rios e mares do norte e nordeste, conhece os cantos, as matas, as costas, o cheiro, a comida e a imensidão de natureza que produz sobrevivência para todo resto do país. É lindo, precisa ser visitado com responsabilidade e colocado como prioridade nas lutas ambientais. Pessoas vivem e preservam essas águas que geram vida para o restante do país.

A água é maré de lembranças, tempestades, ventos, arrebentações, longas calmarias, pescadores, marinheiros, nadadores e piratas. Ela dá volta no mundo e o mundo dá volta nela, é imensidão mesmo, eu disse.

O texto parece poema, parece felicidade de férias, mas é sobre responsabilidade com nossos rios, mares, igarapés e tudo mais onde a água corre. A gente precisa respeitar a biodiversidade. E dá-lhe música sobre o mar.

Eu Quero Ser o Mar – Mahmundi

Eu quero ser o mar
Cruzando a rebentação
Indo com delicadeza no ar
E a terra é alto-mar
Longe das turbulências
Meus medos vão se acalmar
Lá aonde surge a onda pra recomeçar
Na profusão dos sentidos da vida da gente
Da vida do tempo da gente
Mas eu tão aflito
Não consigo
Eu quero ser o mar

Oh

Lá aonde surge a onda pra recomeçar
Na profusão dos sentidos da vida da gente
Da vida do tempo da gente
Mas eu tão aflito
Não consigo
Mas eu, eu quero ser o mar

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.

Mariana Belmont