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É um chamado: até quando deixaremos tantos morrerem?

ECOA

05/12/2019 04h00

Foi quando eu conheci a Marilda, liderança do Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis, foi quando eu conheci o Ronaldo e Vaguinho, do Quilombo do Campinho em Paraty, ambos no Estado do Rio de Janeiro, que eu de fato entendi que indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras protegem as matas com seu próprio corpo, com seu coração, seu olhar e sua força. Trabalhei por alguns anos no Instituto Chico Mendes, fazia parte de um mosaico de unidades de conservação, um modelo de gestão previsto em lei que ajuda a integração entre as unidades e as comunidades locais. As comunidades tradicionais estavam em absolutamente todas as reuniões, pegavam barcos, faziam trilhas, transporte público, mas chegavam.

Não me surpreendo mais com a força das comunidades tradicionais, acompanhei e ainda vejo muito de perto a resistência pela sobrevivência, sabe? Nós, brancos, não temos essa força, nem de longe. Tem uma frase do líder indígena Ailton Krenak que diz: "Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir". E ele tem toda razão, a história nos mostra isso. Afinal, existimos, comemos, respiramos e seguimos vivos porque os povos das florestas estão lá morrendo para salvar cada pedaço de território que ainda sobrevive neste país.

É desesperador mesmo, eu gostaria muito de trazer mais boas notícias, de levantar e conseguir ter coragem de ler os jornais, ou de ver as mensagens dos meus amigos em perigo na floresta. Mas não existem mais boas notícias há muitos anos, e há 12 meses nada temos de bom vindo do atual governo. Absolutamente nada é esperançoso, não há uma vírgula que podemos salvar, e quem diz que "não é bem assim, mas veja" ainda não entendeu, ou o privilégio não deixou ver, cegou.

Talvez até amanhecer outras notícias surjam, mas em menos de dois dias tivemos o assassinato do líder quilombola José Izídio Dias, o "Seu Vermelho", do Quilombo Rio dos Macacos, região metropolitana de Salvador. Em mais um crime terrível contra os povos e comunidades tradicionais. Investigar, processar e responsabilizar mandantes e executores deste crime, portanto, precisa ser prioridade do Estado brasileiro. Cabe registrar que o número de assassinatos de quilombolas cresceu 350% entre 2016 e 2017.

Na manhã seguinte amanhecemos com a notícia da prisão dos brigadistas em Alter do Chão, no Pará. É gravíssimo, isso tudo acompanhado da criminalização dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil que lutam pela floresta em pé e pelos direitos dos povos que vivem ali. Como estão fazendo com a organização Saúde e Alegria, que há anos promove na Amazônia um trabalho sério e respeitado pela saúde e desenvolvimento comunitário e na briga contra a especulação imobiliária.

Vira a página, o ministro da economia, Paulo Guedes, repete a ameaça de pedir um novo AI-5, o Ato Institucional nº 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). E, como brilhantemente escreveu Eliane Brum em sua coluna no El País, "O AI-5 já se instala na Amazônia (e nas periferias urbanas)". E é verdade. E um dia antes do I Encontro Internacional da Coalizão Negra Por Direitos recebemos a notícia de que a presidência da Fundação Cultural Palmares será assumida pelo jornalista e militante bolsonarista de direita, Sérgio Nascimento de Camargo. O novo presidente tem um histórico de agressões a personalidades negras brasileiras, principalmente a mulheres, e à memória da nossa querida companheira Marielle Franco, reconhecida internacionalmente por seu trabalho contra o racismo e o genocídio da população negra e periférica. Além disso, ataca símbolos da história afro-brasileira, como Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra, desrespeita as religiões de matriz africana e as manifestações da cultura periférica como o funk e o hip-hop.

Não é para dormir, afinal amanheceu e a informação era que 8 pessoas morreram pisoteadas na favela de Paraisópolis, zona sul de SP, durante um baile funk nesta madrugada. Elas foram feridas quando a multidão de 5 mil pessoas se assustou e tentou fugir de tiros disparados por PMs, em motocicletas e perseguindo supostos ladrões de moto. Enquanto isso, o Estado passa ileso, mais uma vez, pela responsabilização das mortes.

Enquanto tentamos respirar, os territórios quilombolas e indígenas seguem sob ameaça, ninguém dorme. Os Yanomami se organizam para impedir o avanço do estudo que prevê permitir a mineração em terras indígenas. Não tem tempo de morrer e nem de viver, é luta para continuar existindo. Enquanto tentamos respirar e sair debaixo d'água mais 10 jovens negros foram assassinados pela polícia em alguma periferia brasileira, e mais uma mãe sangra, um pai sangra e outros jovens seguem sendo alvo do próximo dia. E o governo fazendo lei dando licença para matar.

Toda solidariedade à família de Seu Vermelho, à comunidade do Rio dos Macacos e a todas as lideranças quilombolas do Brasil que têm sido cada vez mais perseguidas, violentadas, exterminadas. Toda solidariedade aos indígenas das Terras Yanomami. Toda solidariedade às mães e pais que perdem seus filhos todos os dias pela mão do Estado. Toda solidariedade às famílias dos oito jovens mortos em ação da polícia em Paraisópolis. Toda solidariedade aos deputadas e deputados aguerridos que seguem na resistência e nos ajudam a não perder tanto nesse jogo, agradeço tanto à Áurea Carolina, Talíria Petrone, Joênia Wapichana, Orlando Silva, David Miranda, Benedita da Silva, Paulo Teixeira, Nilto Tatto e tantos outros que agora não consigo citar, mas são necessários nessa luta diária. Toda solidariedade aos movimentos sociais, organizações da sociedade civil, em especial o movimento negro brasileiro.

Novamente deixo um trecho do livro A queda do céu, do xamã e porta-voz dos Yanomami, Davi Kopenawa. Que todos dias nos ensina:

"Alguns brancos chegaram até a afirmar que somos tão hostis entre nós que não podem nos deixar viver juntos na mesma terra! Mais outra grande mentira! Nossos ancestrais viviam na mesma floresta havia muito tempo, muito antes de ouvirem falar dos brancos. Essa gente mentirosa acredita mesmo que somos tão perigosos quanto os soldados dos brancos em suas guerras? Não. Só quer espalhar más palavras sobre nós porque precisa da ajuda delas para conseguir se apoderar de nossa terra. Mas não é pela beleza de suas árvores, animais e peixes que os brancos a desejam. Não. Eles não têm mais amizade pela floresta do que pelos seres que a habitam. O que querem mesmo é derrubá-la, para engordar seu gado e arrancar tudo o que podem tirar do seu chão…Embora os brancos se achem espertos, seu pensamento fica cravado nas coisas ruins que querem possuir, e é por causa delas que roubam, insultam, combatem e por fim matam uns aos outros. É também por causa delas que maltratam tanto todos os que atrapalham sua ganância. É por isso que, no final, o povo realmente feroz são eles! Quando fazem guerra uns contra os outros, jogam bombas por toda parte e não hesitam em incendiar a terra e o céu. Eu os vi, pela televisão, combatendo com seus aviões por petróleo. Diante daqueles fogaréus, de onde saíam imensas colunas de fumaça preta, pensei, apreensivo, que elas poderiam um dia chegar até nossa floresta e que os xapiri não conseguiriam dispersá-las. Mais tarde, revi muitas vezes essa mesma guerra no tempo do sonho. Isso me preocupou muito, porque pensava: "Hou! Esse povo é mesmo muito agressivo e perigoso! Se nos atacasse desse modo, iria nos reduzir a nada, e a fumaça de epidemia de suas bombas logo acabaria com os poucos sobreviventes!"

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.

Mariana Belmont