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Mariana Belmont

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E se a gente parar tudo e ouvir?

ECOA

24/10/2019 09h55

Talvez esteja na hora de parar, largar os tratores e começar de novo

Era dia 6 de outubro de 2018, eu estava na Colônia [zona Sul de São Paulo]. Eu ainda voto no meu bairro, era véspera de dia de eleição. Dia de escolher nosso novo presidente da República e outros representantes para o legislativo. Eu sempre gostei muito de votar, mesmo antes de votar eu acompanhava minha mãe e meu padrinho até a escola e em geral acompanhava as escolhas deles de perto. Antes de dormir finalizei o livro do Davi Kopenawa "A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami". Carreguei aquele livro enorme até Parelheiros, porque eu estava fascinada com aquele registro escrito. Era incrível cada trecho.

Trechos sublinhados, pensados, anotações para pensar depois mais a respeito e conectar tudo que o tempo da vida não deixa fazer. Mas hoje sentei para escrever este texto e me lembrei dele, talvez porque tem muita gente falando desse livro nos últimos dias. Ele foi citado no "Ideias Para Adiar o Fim do Mundo", de Ailton Krenak. Eu ainda não li, quem sabe até este texto ser publicado, tô curiosa.

Abri o livro no texto 8, O céu e a floresta. Vou transcrever o começo:

"Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameaçadores, mulheres e crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na época. Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do Rio Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem próximos. Era mesmo muito assustador! Aos poucos, todos se puseram a gritar e soluçar de pavor no acampamento: "Aë! O céu está despencando! Vamos todos morrer! Aë!" Eu também tinha medo. Ainda não havia me tornado xamã, e perguntava a mim mesmo, muito inquieto: "O que vai acontecer conosco? Será que céu vai mesmo cair em cima de nós? Vamos todos ser arremessados para o mundo subterrâneo?"

E este longo trecho começa a ecoar na minha cabeça depois do turbilhão que passamos no Brasil, era 8 de outubro de 2018, acordei numa ressaca emocional absurda e com um medo absurdo, era como se já tudo tivesse desmoronado. A sensação ficou ainda pior no segundo turno, no dia 28 de outubro. Era como se o céu estivesse caindo. Era como se a gente estivesse deixando tudo ir olhando pela janela. Foram realmente dias tristes.

Bem, são marcas na história. O livro do Davi é marca para nossa história e para a história dos povos originários. As eleições de 2018 marcam a história política de desmonte do país. Em especial da política ambiental brasileira, que segue colecionando uma porção de abandono e destruição do que sobrou.

A lista de descalabros é imensa. Desmonte de todos os órgãos de fiscalização, conselhos participativos de unidades de conservação, projetos organizados de proteção aos principais biomas do país, barrando financiamento de projetos históricos de defesa da Amazônia, a lista é infinita. E segue crescendo. E parece não haver um caminho viável possível. É chuva de cinzas, é desmatamento, temperaturas altíssimas nas cidades ou a instabilidade delas. Parece que estamos caindo de um abismo sem fim e não tem como voltar atrás.

Eu nasci e cresci a poucos quilômetros de uma importante terra indígena da cidade de São Paulo, cresci usando o mesmo transporte público que os guarani que voltavam do centro, onde vendiam suas peças artesanais. Cresci participando de atividades na escola deles. Cresci e aprendi com líderes, muitos da minha idade, da terra Tenondé Porã – é a aldeia com a maior população Guarani Mbya no Brasil. E isso me trouxe ensinamentos de respeito e escuta preciosos.

Então, eu acho que hoje o ensinamento é esse. Qual comunidade, pessoa, referência, família ou registro histórico você tem lido ou escutado sobre a importância de sobreviver para proteger as próximas gerações do fim da natureza? Você conhece a história e importância dos quilombos no país? Das populações ribeirinhas? Dos indígenas? Passamos da hora, é urgente entender e se somar a essas lutas históricas que nos ajudaram a chegar até aqui.

A escrita do Davi nos traz o modo limitado que nós brancos fazemos questão de escrever a história. A gente escreveu uma história que não é nossa, a gente construiu pontes desnecessárias e cortou florestas por uma ambição que internamente nem sabemos o que significa. Então, que tal a gente parar agora? E começar a ouvir e ler quem veio antes?

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.

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