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As lembranças nos desafiam a construir dias melhores

ECOA

30/01/2020 04h00

Hoje me peguei pensando sobre lembranças.

Lembrança é um troço que bagunça mesmo a gente, e eu nunca parei para prestar atenção na lembrança. Então, hoje eu sentei no chão do quarto, abri as caixas, as pastas, as fotos e toda lembrança estava ali. Tenho uma parte aqui em casa, uma parte na minha mãe e uma parte na casa do meu padrinho em Colônia, bairro da zona sul de onde eu vim.

Eram tantos papéis, acho que separei uma porção enorme de folders sobre unidades de conservação, crachás de eventos, manifestos, organização de falas em eventos, revista com entrevistas, fotos e uma bagunça sem fim de documentos que também são um resgate de momentos que a gente guarda numa caixinha.

Eu preparei uma porção de temas e pautas para escrever nos próximos dias, meses, tenho um plano na minha cabeça e, em um documento, uma trilha a seguir.

Quase 80% da minha curta vida existiu dentro de um pedaço da Mata Atlântica, na Colônia Paulista, no extremo sul da cidade, mas isso vocês que estão acompanhando aqui devem saber bastante. E todo o início da minha vida me fez olhar para São Paulo de um jeito diferente. Eu acordava de manhã com galo cantando, cachorros aos montes no quintal, café quente, passarinhos, agitação de vô se preparando para cuidar do quintal.

Meu almoço, em geral, era sempre sobre o que colhíamos, mas isso também já contei. Meu avô fazia batata e brócolis cozidos com sal pra gente – que delícia! E quando era sopa de feijão meu coração sorria e não havia felicidade maior do que mergulhar o pão naquele caldo, lambuzar a camiseta. Era incrível e feliz.

Então talvez esse texto seja sobre memória afetiva, uma provocação para você e para mim sobre como resgatamos nossa memória afetiva. Lembranças de bons trabalhos, boas lutas, boas escolhas, mas também bons beijos, boas transas, bons amassos debaixo da escada da escola e bons sorrisos. E, claro, boa comida, aquela que você fecha os olhos, sente pela boca e ela desce como se você estivesse correndo pela praça depois de pular do balanço. Da mexerica do quintal do avô, que os amigos do irmão levavam aos montes. Do primeiro amor. Mas também da primeira dor que sentiu, da ausência, da falta e quando quebrou o dedo indicador da mão esquerda sendo goleira no handebol.

Quantos buraquinhos na terra você lembra que abriu sorrindo e feliz para seu avô colocar a muda de alface? E depois você regava tudo? Quantas foram as vezes que você acampou na cachoeira do Jamil e dos Piolli, encorajada pelos amigos. Quantas vezes fez trilha e nadou nos rios limpos da cidade de São Paulo? As fotos são poucas, mas o registro dentro de você é para todo o sempre.

Remexendo nas minhas coisas achei meu diploma da universidade, conquistada com Prouni e prova Unisa para que o valor fosse bem pequeno e rolasse pagar com a grana do estágio. Eu ainda não sei por que não estão na parede.

Eu sinto saudades das brincadeiras de quando era criança, da família bagunçada e divertida. Os tempos nunca foram fáceis, mas eu sentia menos medo de existir, eu acho. Sentia menos medo de perder amigos mortos por existirem.

Eu sempre que mudo a rota tenho a sensação que tô saindo do rio Capivari, gelada, e precisando me cobrir, mas me sinto pronta para enfrentar movimentos novos. Talvez seja para isso que servem as lembranças, sejam elas boas ou ruins. Elas servem para nos fazer viver e olhar para frente. Enfrentar os medos da política, os medos do futuro, os medos que nos circulam e os que estão por vir.

Meu desafio é que a gente olhe para as lembranças de maneira generosa, conecte-as com nosso modo de viver atual e espere que faça algum sentido. Faça isso pegando fotos antigas, cartas, vendo vídeos velhos e fazendo uma reflexão sobre o que está guardado e pode nos ajudar a construir um novo futuro, sobre dias melhores.

Eu vou continuar fazendo por aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.

Mariana Belmont