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Noite dos Tambores: o encontro ancestral de corpos e mentes periféricas

ECOA

21/11/2019 06h00

Esta semana assino este texto com um grande e importante companheiro de luta, Ronaldo Matos*

Espero de verdade que alguém esteja registrando essa história. Nós estamos também, mas obviamente outras pessoas estão. E começar mais um texto dizendo que ele será escrito colaborativamente com meu amigo e irmão de alma Ronaldo Matos é uma honra imensa. Dispensa felicidade.

Resolvemos escrever este texto depois de estarmos juntos com outros amigos na oitava Noite dos Tambores, na Casa de Cultura do M'Boi Mirim, zona sul da cidade de São Paulo.

É impressionante, ou não, como a gente se reconhece nesses encontros. Chegamos nos espaços de festa nas nossas quebradas e todos estão ali, os mais velhos, amigos, conhecidos, referências, quem estudou com a gente e até quem a gente nem imagina que verá. É assim toda semana no Sarau da Cooperifa, é assim no Sarau do Binho, é assim no Pagode da 27, é assim no Quilombaque, é assim nos espaços de cultura e resistência em nossos territórios pela cidade. A gente se conhece e se reconhece, é bem bonito e potente. E quando você chega na Noite dos Tambores encontra o Binho, o Vaz, o Salloma Salomão, a Suzi, a Naruna, o Allan da Rosa, e tantas e tantas pessoas que nos fazem ser e seguir.

A Noite dos Tambores é presença, resistência e a memória afrodiaspórica que resiste nas periferias da zona sul de São Paulo. O festival de música instrumental acontece há oito anos, reunindo grandes nomes da diversidade rítmica de várias matrizes, entre eles Jongo da Serrinha (RJ), Candombe do Quilombo do Açude da Serra do Cipó (MG), Senu-gal (Senegal), Tambor de Crioula Juçaral do Pretos (SP), Maracatu AZ de Ouro de Fortaleza (CE), entre outros incríveis tambores que tocam nossos corações e não deixam nosso corpo parado.

Essa conexão ancestral leva cada pessoa ali presente a voltar no tempo ou para casa refletindo que seu pai, mãe, vô, vó, tio e tia vieram de estados diferentes, para construir a vida em São Paulo. Nesse processo é inevitável não refletir sobre o fato de a trajetória de vida das matriarcas e patriarcas de nossas famílias, marcada pela necessidade de sobreviver na maior metrópole da América Latina, sofreu ao longo do tempo uma perda de identidade e até mesmo um apagamento de tradições.

Quando a Noite dos Tambores garante o encontro desses moradores com sua origem ancestral, ela contribui para a construção de um museu ou uma galeria de arte territorial, repleta de memórias vivas e intensas dentro das periferias. Como a exposição da arte propagada pelo projeto não é analógica nem digital, ela humaniza e convida todos os presentes a se emocionar com a preservação da história da população negra brasileira.

As memórias afetivas são garantidas pelos efeitos visuais e sonoros que cada instrumento, artista, grupo, cantiga, música ou ritmo gera no coração de cada homem, mulher, jovem, idoso ou criança que estavam nos arredores da Casa de Cultura M´Boi Mirim de maneira única e estruturalmente política.

Ao preservar a memória, garantir o encontro, resgatar uma identidade cultural e um modo de vida ancestral, a Noite dos Tambores também reafirma o seu propósito político de mostrar que todo morador da periferia tem direito à memória do seu povo.

Como todos os movimentos culturais das periferias de São Paulo, toda a construção é feita na falta, ou quase inexistência, de recursos e pela dura dificuldade cotidiana dos moradores. A Noite dos Tambores resistir ainda na zona sul é referência da grandiosidade e importância da cultura como vocação do território. Só quem vive essa noite, e tantas, consegue entender o poder de conexão entre os moradores da região do M'Boi Mirim e de outros territórios distantes. É espaço de troca, ancestralidade, felicidade e lugar de segurança afetiva.

Em tempos em que a cultura no país se torna ainda mais inacessível, seguindo no desmonte das políticas públicas por meio da censura por parte do atual governo, as periferias seguem em resistência, transbordando existência. Nunca foi fácil, os recursos e os incentivos nunca chegaram nas bordas da cidade, nunca foi prioridade, desde então o centro fica com a maior parte do bolo e os artistas mainstream com a cereja.

No comando do microfone, entre uma atração e outra, Renata Prado, da Frente Nacional de Mulheres do Funk, mais um exemplo de movimentação de resistência, que, assim como o samba, que era crime e hoje é patrimônio, e o rap, que era perseguido e hoje está disputando grandes prêmios, o funk veio da periferia negra e é criminalizado. Ela chama atrações históricas para o palco, que descem para o meio do público, abrem rodas, dançam, nos fazem sorrir. E em alguns momentos você se imagina vivendo no melhor lugar que poderia estar e participando da história contata.

Além de experimentar momentos de imensa felicidade, respeito, coração imenso, amizades, referências, tudo isso faz parte de como estamos existindo resistindo dentro de nós e com os nossos. E além de usar essa forma de felicidade para denunciar o desmonte, a censura, a falta de recurso, o genocídio da juventude negra das periferias, cabe a nós desprezar essa política que não tem nada a ver com a gente, com força e luta de quem não tem mais nada a perder, porque nunca foi fácil pra nós.

Então, nessa noite de calor, há ventinho fresco, regada a cerveja artesanal produzida pela quebrada, conversas aleatórias sobre política ou sobre alegrias, um gingado, um dançar, um balanço para fazer o Maliki dormir ao som dos tambores e a música de resistência negra na quebrada, vinda de tantas quebradas urbanas e rurais do país. Vale lembrar que os pais do Maliki, Simone Freire e Dimas Reis, são uma família preta e periférica linda, que saiu da Brasilândia, zona noroeste da cidade, para celebrar a Noite dos Tambores como um espaço de afeto político, cultural e familiar.

E, por fim, deixamos aqui a letra da música de uma mestra Clementina de Jesus, que muito nos ensina, nos protege. E agradecemos aos ancestrais por tanta sabedoria, aprendizado e sabedoria. E agradecemos a existência da Noite dos Tambores em nosso tempo.

Embala Eu – Clementina de Jesus

Embala eu, embala eu
Menininha do Gantois
Embala pra lá, embala pra cá
Menininha do Gantois

Oh, dá-me a sua benção
Menininha do Gantois
Livrai-me dos inimigos
Menininha do Gantois 

Dá-me a sua proteção
Menininha do Gantois
Guiai os meus passos por onde eu caminhar
Vira os olhos grandes de cima de mim
Pras ondas do mar

*Ronaldo Matos é morador do Jardim Ângela, zona sul da cidade de São Paulo. É jornalista educador, pesquisador e integrante do coletivo de comunicação Desenrola E Não Me Enrola. 

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.

Mariana Belmont