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Mariana Belmont

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Quem está nos salvando de nós mesmos?

ECOA

10/10/2019 10h04

Quem mora nas periferias das cidades brasileiras bem sabe o que são mudanças climáticas, talvez só não usem esse termo para contar que as enchentes, o tempo seco, a falta de água, problemas de saúde causados pela falta de saneamento básico são recorrentes em seus territórios.

O desmatamento descontrolado, mesmo que o atual governo minta sobre os dados científicos, corta as florestas, expulsam e exterminam povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares. Isso e mais um grande número de desgraças ambientais acontecem porque o planeta não para de esquentar, barragens de mineradoras irregulares estão matando milhares de pessoas, o gelo está derretendo, a Amazônia e o Cerrado pegando fogo, Mata Atlântica sendo comida pela fome desenvolvimentista.

É inegável que o planeta está em chamas, e os países mais pobres e com baixa ação para reduzir as emissões são os que mais sofrem com os desastres, que, como sabemos, começam nas margens das cidades e exterminam comunidades e povos tradicionais. Não temos o que comemorar! Estamos diante do abismo, a situação atual é uma bomba relógio prestes a explodir. A sensação térmica que sinto olhando para o horizonte do planalto central me faz acreditar nisso, e também essa fuligem de queimadas que tenho respirado esses dias em Brasília.

Quem resiste por nós diante do cenário do fim do mundo?

De onde eu venho, mais de 400 agricultores familiares resistem à falta de chuva, ao calor que queima as folhagens, às grandes obras com a falácia da chegada do desenvolvimento, mas o alimento maior que eles produzem em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, é a água para 24% da cidade. Ao lado deles, os Guarani preservam e permanecem defendendo seu território, a maior terra indígena da região sudeste, com 15.969 hectares de extensão, a Tenondé Porã. Território privilegiado por cachoeiras, extensa biodiversidade e um ar de invejar qualquer outro canto da cidade de São Paulo, da ponte pra lá.

Então temos a teoria de que quem protege o meio ambiente para que a qualidade de vida de todo o país exista está na margem? Não tenho a menor dúvida, além de muitas organizações não-governamentais sérias, que fazem um trabalho de pesquisa, incentivo e fiscalização pelas áreas mais importantes do país.

O modo de viver quilombola, caiçara, indígena, ribeirinha e de agricultores familiares faz parte da história do Brasil. Sem as comunidades tradicionais, o país viveria em tempos ainda mais escassos de recursos naturais e à beira de um intenso colapso ambiental nos centros urbanos e rurais de todo o território nacional.

O Estado brasileiro precisa se responsabilizar, passou da hora e do limite o descaso e a forma predatória que os governos aceitaram o desmatamento e a falta de planejamento urbano conectado com a proteção ambiental nas cidades. Demarcação de territórios e titulação de terras é dívida histórica deste país com quem chegou antes e resiste junto com as florestas. É urgente, é prioridade.

E se os governos anteriores nunca colocaram a questão ambiental brasileira como tema central, o governo atual planeja uma política predatória e calamitosa, se nega acreditar na ciência, nos fatos e a cuidar do problema. O governo Bolsonaro é a combinação criminosa do autoritarismo e o fanatismo ideológico de toda a sua turma, um descaso com a população que o Estado deveria proteger.

Floresta é água, água é floresta, cidade é floresta, floresta é cidade.

Toda a nossa existência passa por quem veio antes de nós, quem criou tecnologias inovadoras de preservação e proteção da terra, da água, das matas. Só por isso ainda estamos aqui. Davi Kopenawa nos alerta sobre a floresta viva que tem coração, coragem, respira, sente dor e sofre com suas árvores derrubadas e a terra queimada, mas cujos lamentos não são escutados pelos ouvidos surdos dos brancos, que a destroem em nome do desenvolvimento ou de uma ganância que parece não ter fim.

"O valor de nossa floresta é muito alto e muito pesado. Todas as mercadorias dos brancos jamais serão suficientes em troca de todas as suas árvores frutos, animais e peixes. […] Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob as águas e também todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder restituir o valor da floresta doente." – Davi Kopenawa

O fato é que não há desenvolvimento de concreto que resista em um país sem ar, sem incentivo à agricultura, permanência de seus povos na preservação de suas terras, sem florestas. As pessoas estão morrendo e precisamos com urgência ouvir e aprender com nossos antepassados, precisamos partilhar desse partilhar desse movimento de permanência de preservação ancestral, precisamos nos responsabilizar AGORA.

Sobre a Autora

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

Sobre o Blog

Cidades que são florestas, florestas que são cidades, mudanças climáticas e conexões para viver melhor. Semanalmente, Mariana Belmont pensa sobre o que tudo isso tem a ver com a gente, e explica melhor essa história de meio ambiente sermos todas e todos nós juntos no mundo.

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